21 de setembro de 2009

Do porque dos caminhos seguirem como seguem.

Eu juro; eu tentava deletar postagens antigas. Aquelas postagens, que mesmo eu tendo feito com certo esmero e determinado sentimento no dia, agora, nossa, até embrulham o estômago. É complicado apagar o passado, mesmo que de uma forma singularmente simbolista.

O dia está chuvoso e as coisas aconteceram durante o mesmo.

Um dia de chuva, como o de hoje, é suficiente para encher muitos rios. Rios grandões. Muitos rios mesmo. Daria para acabar com a sede de muitas pessoas do Nordeste, irrigar plantações, limpar roupas de festa e deixar as pistas da Serra das Araras realmente perigosas. Mas, não foi nem mesmo a chuva que impediu as coisas de acontecerem hoje. Não hoje, ou ontem, ou antes de ontem. Amanhã? Menos ainda.

Assim como o cinza, acredito que a chuva seja um marco de passagens. Passagens essas boas ou más. Hoje, num dia de chuva, num dia que teria tudo para ser tristemente cinza e molhado, o dia foi-se mostrando maior do que a possibilidade negra: foi coloridamente cinza e molhado.

Ah, chuva que bate nas faces e faz o vento frio ser algo confortável. Nem mesmo as dificuldades ou as póstumas resfriações, fungadas e escorridinhas incomodam. Elas lembram, aliás, que tudo correu bem. É a magia do bem se manifestando em coisas não boas.

Mas, já ia me furtando de mim mesmo meus ideias que havia pretendido aqui explanar. Pretendi isso tudo, que ainda não sei se vai sair por completo, no caminho para casa dentro de um ônibus abafado e quente. Junto, eu passava pela corrosiva situação de me encontrar dentro de uma caixa de metal lacrada, onde pessoas, todas juntas e sem pudor, respiravam e liberavam o que havia dentro delas. Literalmente, eu respirei o mesmo ar que eles, e, de um modo biologicamente dito, fiquei incomodado e quase nervoso. Deve ser fobia, ou frescura.

A parte mais apetitosa foi ter visto uma digna senhora, ao meu lado, removendo o embaçado do vidro sujo com o indicador da mão esquerda. Fiquei olhando de rabo de olho aquela situação e, ao fim, ela havia limpado o vidro e via tudo lá fora. Mas, como limpar o dedo, agora mais sujo do que o vidro?

Esfregando na calça.

Repulsa!, repulsa!, ojeriza!, asco!, mais repulsa e mais asco!

Bem, ai tomei noção de que a chuva lá fora e o calor dentro de ônibus tinham uma relação direta.
Percebi também que o desejo da senhora de limpar o vidro sujo com o dedo, para poder 'ver melhor' o mundo lá fora, tinha relação direta com a chuva, e que minha repulsa, meu asco e minha ojeriza, todos tinham uma relação, indireta, com a chuva.

A chuva limpa, mas é fria. Quem não está acostumado com essa sensação de frio, simplesmente negasse a sentí-lo, e afoga-se dentro de um calor infernal. Também quem não gosta do frio que vem com a chuva, não gosta de molhar-se. Logo, mais um motivo para lacrar-se e tornar uno o calor e o abafado.

É por essa postura, principalmente, de querer negar-se ao prazer de viver algo diferente do comum que muitas pessoas se colocam em situações torturosas.

Mas, para fecharmo-nos dentro de nossos mundos, dentro de nossas caixas de metal quentes e abafadas, perdemos o tato com o mundo. O mundo lá fora. O mesmo mundo do qual fazíamos parte. Então, para não sentir-se longe de tudo o que nos faz viver, damos uma sujada em nossas mãos e fazemos coisas indignas. Coisas podres, coisas realmente feias, com o intuito mero e simples de acreditar mesmo que se faz parte do mundo, mesmo que só vendo-o por uma janela desembaçada (e gotejada pelo lado de fora).

Não embarque nessa de se fechar. Não vale a pena.

Enfim, é por isso que não gosto de voltar para casa em dia de chuva, de ônibus. Espero ter explicado bem o ponto.




Postzinho misturado, hein, João Victor?

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