12 de novembro de 2010

Morning

E então você abre os olhos, com aquela dor nas costas e no corpo que só podem te dizer uma coisa: hora de trocar o colchão.
O vento do ventilador bate encima da sua cara como se arrancasse os seus pulmões um pouquinho mais a cada instante, e você sabe que o seu dia vai ser a mesma merda de sempre. O seu cheiro é a segunda coisa que você nota, e isso te desagrada. Não que você seja fedorento, pelo contrário; o seu cheiro te agrada. Por isso mesmo você sabe que alguém mais deveria estar sentindo isso e se agradando com você, com o seu cheiro.
Não. Não é isso na verdade.
É um pouco mais profundo do que somente dividir as mesmas sensações com alguém, do que dizer as mesmas coisas e ter as afinidades profundas possíveis: isso tudo você já teve e, de um modo ou de outro, é infelizmente que você sabe que pode ter tudo isso quando quiser. O que você procura ninguém pode te dar.
É um cheiro diferente de manhã, com ou sem o ventilador. Sem o ventilador, de preferência. Então, deixa pra lá, que por enquanto nada deve ser mudado de lugar.

Água gelada é tudo o que você deseja. Sua boca seca se abre e range como uma porta velha ou um pedaço de carne podre no ar, e só a pia pode te satisfazer. Água gelada, só depois de descer 34 degraus, e você não está preparado pra isso às duas da tarde, logo após acordar de um sono fudido e cansado. Você não durmiu, adimita. Ficou apenas naquele estado transitório e contínuo de quase sono, ou sono suspenso, onde tudo é controlado por você. Inclusive os seus sonhos.

20 de outubro de 2010

Desde a última vez em que havia visto empenho dentro de mim, não tinha sentido tamanha sanidade intelectual e emocional. Penso que, se não manter essa perspectiva de interesse, perderei completamente as rédeas até da minha sanidade. É agradável notificar-se das conquistas e das vitórias, dos diários e prazerosos resultados adquiridos.


Nunca antes aquilo que se denomina por Filosofia fora tão útil.

27 de setembro de 2010

Convença-me

"(...) -Você não pode solta-la ainda. Não, não é prudente. Sua alma tem de permanecer alocada onde nenhuma outra quer permanecer, e onde nenhuma outra jamais quis permanecer.
Deve ainda se lembrar que não há Liberdade verdadeira, somente a causa única da prisão. Saber o que te prende, talvez seja a chave mais verdadeira da qual você se aproximará em toda a sua vida. Não esqueça que ainda é tempo de perder o controle sobre as coisas e se deixar morrer completamente para a realidade do mundo. Ainda está viável, essa caverna fecunda e promíscua, escura e profunda, onde muitos entram somente até a porta sem jamais olhar para o fundo dela. Não se deixe esquecer que, até onde outros foram, você também pode ir.
Sua alma? Você precisa dela para alguma coisa? Em algum momento, você se permitiu que ela falasse por você sem, em troca, ganhar uma perda? Você, alguma vez, achou mesmo que valia a pena libertá-la e deixá-la respirar um pouco a realidade, sem ser, logo em seguida, asfixiado quase que mortalmente por mãos invisíveis, ou esmagado por pedras imensas? Será que vale a pena morrer pela sua alma? Acreditamos que você saiba a resposta, meu jovem. E essa resposta pode ser a chave de sua libertação deste mundo. (...)"

Birds of Paradise, Livro II, cap. Diálogos da Razão.


Porque um dia ruim pede um texto desgostoso.
Permanentemente danificado, eternamente consertando.

23 de setembro de 2010

Must have more


Melhor do que descobrir, é redescobrir. Acho que sinto o peso de mil moedas de ouro dentro do bolso quando me surpreendo com algo comum, natural; com algo humano. Não, moedas não: corações. Mil corações batendo forte e dizendo que ainda estão vivos por ai, não necessariamente dentro do meu bolso. Seus batimentos são tão mais fortemente sentidos quando estão fora, que não se faz precisa a captura deles.

É um período turbulento, esse. Muitas coisas acontecendo, pessoas entrando e saindo das vidas todas... e você fica perdido, sem saber o que achar, o que dizer, o que sentir. Constrói-se aquela maldita e inevitável barreira de sentimentos e de pensamentos, que te levam, de um jeito ou de outro, àquele mundo vazio e bizarro do cotidiano lotado e atarefado, onde cada respiração mal feita torna-se um gasto, uma perda que te desvaloriza. Não satisfeito, você perde também a única chave que abre os portões do caminho de volta: a razão. Passa a fazer uso esporádico de matérias que te desprendem de sua psiké, com a intenção dupla de entender outras pessoas, e de se desentender consigo mesmo.

Aí então você tem uma breve conversa, onde alguém que está muito mais lúcido do que você lhe recobre a alma com palavras limpas e serenas, batendo de frente com a sua incontrolável raiva e seus argumentos racionalmente válidos. Foi o poder da melodia destronando o poder do raciocínio lógico. Torna-se ridiculamente grande a capacidade da vida em se mostrar como que em certos pontos se liga e se transformando em uma igualmente grande teia de Vida.

Enfim, pra terminar, vou repetir as palavras que um amigo disse ao reencontrá-lo depois de tanto tempo:
"Oi, eu fui, mas pra voltar, lembra?".

20 de julho de 2010

Happens, write


A ideologia mais coesa comigo que já existiu nessa Existência. Da mesma forma que as páginas arrancadas também não aconteceram.

Não, mas chega a ser preocupante: as memórias de que me lembro, estão grafadas em cadernos! O resto... perdeu-se. Bizarro.

Dia do Amigo

"Escrevo-te esta carta, sinalizando todo o meu amor. Escrevendo estou, porque com palavras ditas não me procedo tão bem quanto posso aqui. Não vou me estender, nem vou por isso procurar me encurtar: serei breve.


   'Você é o frio na barriga que me apetece em sentir, mesmo eu sendo um dos maiores abominadores do frio interior.Você me faz cair da cama, como num sonho em que se cai de alturas inimagináveis, alturas daquelas que só os sonhos loucos nos propiciam, quando ainda a noite não há de ter caído e muito menos eu adormecido. É meu fôlego mais sufocado, meu vício mais saudável, minha vontade insaciável; o meu completo oposto improvável, que me completa. A causa das preocupações, das amarguras e das violentas incertezas. A razão do amor que invade e me renova e me detém e me impulsiona cada vez mais! Você me faz criança, me inflige curiosidade e interesse; me torna mais eu e menos qualquer outra coisa. Devolve à mim o brilho no olhar que me fora tirado por outro alguém, e me diz coisas simples e impensadas, que só um coração aberto poderia proferir. Você é Crime e Castigo, é Armand e é A Hora da Estrela. É Zaratustra, é O Alquimista, é Édipo Rei. Você é mais do que páginas, você é capa, contra-capa, prólogo, introdução, epílogo. Meu parágrafo inicial, minha vírgula e meu ponto. Você é minha ausência de palavras e ditadura de sentimentos.
Você é tudo, você é Amigo.'


Birds of Paradise, Livro I, 20 de julho de 2009."


À todos os amigos. (:

9 de junho de 2010

Kfé

"(...) meus pensamentos tendem a parecer que soariam ótimos em livros que não escrevi, e nas músicas que não canto. Mesmo assim, não existe parte alguma ou de Literatura, ou de música, ou de trabalho artístico que explique de verdade o modo como eu sinto. E existe sim, uma linha tênue e confortante em saber que ninguém mais sabe, de fato.(...)" - Birds of Paradise, Livro II, JV.

E enquanto a minha mente está lá e, sejá lá onde lá for, lá é muito sortudo e não sabe, eu tomo meu café.

Aquele café americano, extra-forte, triplo, sem açúcar, quase um berro de realidade na garganta e mil almas queimando dentro,
Vamos fazer um café:

3 doses de consciência;
1 copo de vida fervente, de preferência;
e para os aventureiros desmedidos, troque 3 por 9;
1 Sociedade
1 mente, óbvio, pois sem ela, não há café;


Antes de qualquer coisa, verifique a voltagem da tomada. A recomendada pelo Fabricante é de a 110v, podendo ocorrer curto na mente caso a voltagem esteja elevada demasiado, ou mesmo não haver funcionamente correto do mesmo, se defasada.

Coloque 1 Sociedade dentro da mente, ajustando bem para que não fique espaço sobrando entre a mente e a Sociedade.
Adicione as medidas de consciência, à vontade (note que a consciência se mantém retida na Sociedade)
Agora, verta cuidadosamente a vida fervente (cuidado, ela queima) na consciência e, lentamente, perceba o café saindo do outro lado da Sociedade.

Sirva em canecas absurdas de porcelana, sem açúcar e acompanhadas, cada, de 3 biscoitos de chocolate.
Enfuck.

20 de maio de 2010

Delirium Vibratum

"... I'm not saying anything you haven't heard before ..."

“Não. Simplesmente não”. Toda vez que perco o rumo da realidade e introjeto-me dentro, é isso que ouço. “Não. Simplesmente não”. Várias coisas passam por entre os espaços dessas palavras, várias delas até fazem parte das próprias palavras, outras nem me pertencem. Muito, aliás, não tem me pertencido. Como se pensar não fosse parte de mim, mas parte do mundo como um todo e indiferente a minha vontade singela por silêncio.
Crises de dor de cabeça incrivelmente torturantes correlacionam-se com pensamentos angustiantes seguidos de “Não. Simplesmente não”. Agora, saber demais é algo imperioso, e é disso que você gosta. Admira o tempo perdido vivendo a vida, e ressente-se por isso. Viver não é nada perto do que é vida de verdade, mesmo tendo sido pra você absurdamente valioso em tempos remotos e nefastos e profanos e confusos. Se lá valeu a pena viver, aqui não seria diferente, nem mesmo seria digno indecorar as próprias escolhas. Acho que já esqueço do que é o arrependimento e já não sei mais do que é o ressentimento. “Não. Simplesmente não”. A gente nunca sabe até que procura no dicionário e não encontra, e sente o vazio da ignorância analogando com a própria realidade fugitiva. Papeis aos quilos, textos aos bíblicos níveis da leitura, tempo aos mirrados dias que passam durante uma semana desgarrada de mim mesmo: Você leva uma vida completamente diferente do que levava.

Andar te tortura, é a proeminente necessidade de ver as coisas como elas são que te tornam um pouco menos amigo de si mesmo e, caminhar consigo passa do paraíso ao inferno urbano em apenas alguns passos e algumas flores. Não é ruim, apesar do parecer. Já está inerente e correndo de fora pra dentro a noção de felicidade conspirada no dia a dia, essa mutável felicidade. Felicidade é tudo e não é nada. É perder o valor e ganhar uma bolada! Ou então dormir quando se está atrasado, e acordar cedo.

O café virou seu amigo. Você é mais um cracudo do café por aí. Perdeu o gosto por cigarros e, esporadicamente, fuma um ou outro por pura psicologia reversa. Relembrando o passado com fumaça que se esvai; ótima estratégia. “Não. Simplemente não”. Não sente mais necessidades, não ouve mais aquelas coisas que não fazem parte da realidade, está vazio. Você está vazio. Não há mais um caos dentro de você, somente. Ao contrário, e não somente, ele está do lado de fora, e de forma harmoniosa comigo e consigo, ambos “caotizam” juntos, sem notar que anulam-se. Você anula o mundo, e vice-versa.

Você se torna cada vez mais desconexo à Ele. Perde na memória as coisas e ela dá uma volta por aí, sem te avisar quando volta. Dorme fora as vezes. Passa por momentos memoráveis, por pessoas memoráveis, lugares memoráveis: mas esquece. No raiar seguinte do sol, já não há mais nada ali. Nem mesmo os sentimentos (seus amigos de confidência que sempre estavam presentes para lhe relembrar quando as memórias lhe faltavam) estavam  aparecendo prum café.

Você larga de mão, atola-se em textos alheios que esperam por uma correção sua e passa a ler vidas em linhas. Passa a pensar e  a escrever de si próprio na terceira do singular, e vezes repetidas, em duas pessoas diferentes. E narra. Narra cada passo com o descritivismo de um parnaso-realista pós fada-verde. O tempo é tão pouco, a vida é tão intensa, que até você perde a graça pra você mesmo. Os interessantes não te vêem igual, você desbota em segundos o que levaria anos para desbotar. E colore novamente espontaneamente. Você é estranho.

Você não pensa no que escreve, não escreve o que pensa; realmente, ter um futuro à vista te deixa completamente desnorteado.


Está uma merda (:

11 de fevereiro de 2010

A inconstância que consome criando


Nunca foi de paciência que se fizeram os bons momentos. Sempre que se passava por um desses, era-lhe mais fácil jogar as mãos encima e transformar o que fosse em algo menos necessitado dessa tal "Paciência". Coisa de nome feio, com cara de coisa feia!
Tinha um certo receio de tudo que lhe pedisse paciência. Paciência não dava em nada e só tirava: tirava o tempo, o gosto, o prazer, a aventura... e "Paciência" nunca foi tão interessante. Só via gente paciente, triste. Quem era paciente nunca lhe parecia feliz, ou mesmo alegre.

Sempre diziam-lhe, os "pacientes": "-Tenho paciência porque é ela que me ajuda a ter aquilo que quero." Nunca teve tempo de ver essas conquistas. Enquanto esperavam, ele já estava em outro lugar do mundo, ou o mundo mesmo havia mudado completamente à sua volta sem mais nem menos. E gostava mesmo era disso. Não menos esperava e,

Havia tudo mudado de lugar. Ficava tudo meio diferente e ebmrlhaado, pedindo pra ele com um tom de súplica indiferente uma ajudinha. Uma mãozinha, uma mãozinha...

E era isso também, não só a mudança, mas as suas mudanças. Ele agindo, ele fazendo, ele ali, no meio; não um "paciente" que sempre espera. Talvez um impaciente, que para ele era quem fazia os pacientes pararem de esperar. Ficava tão contente apenas em contemplar a alegria nos olhos dos que deixavam de ser pacientes que esquecia-se da sua. E não havia quem lhe lembrasse nesse mundo disso, ou de qualquer coisa. Ele sempre mudava, sempre saía e nunca que voltava, mesmo se fosse-lhe a saudade perturbar a vida. E quando ele via que voltava, já via que não era mais ele: já não se via e nem ao mundo com os mesmos olhos. Nunca voltara.

Um dia, ou uns dias, o mundo mudou à sua volta de forma tal que ele sentiu dor. Foi tudo muito rápido e ele não teve onde se segurar. Quem estava por perto sumiu, e ele não viu mais nada.
Escuro.
Quase foi parar no hospital de tão forte que foi essa guinada! Mal podia sentir as pernas no final de tudo. Na verdade, não sentia as pernas, mas não se incomodava muito com isso. Pelo menos eram mais fáceis as caminhadas, que mais pareciam voos plenos e vez por outra razantes em abismos. E quando ia fundo, sentia pena. Sempre via alguém lá embaixo e sentia vontade enorme de grande de puxar pra cima, de volta à vida. Queria dar-lhe asas e dar-lhe olhos e dar-lhe abraços e dar-lhe mel. Queria poder voar junto.

Mas nunca aconteceu. E ele também nunca sentiu-se mal por isso; sabia que não voaria junto, mas que também jamais cairia junto. Não acreditava em quem lhe dizia que "talvez, um dia, você encontre alguém por quem valerá a pena cair do mais alto!"
O que valia a pena nunca lhe teve pena. Não entendia essa coisa, parecia até ser ligada à essa tal "Paciência": "Tudo que é bom causa dor", "A alegria é o intervalo entre duas tristezas". Comia mel desde sempre e nunca sentiu dor por isso, só quando comia demais. E não pensava que haviam intervalos: acreditava que quando ficava triste, era motivo de alegria. Sabia que havia sido o mais alegre possível antes e que, em breve, o seria novamente. Aproveitava cada momento de tristeza lembrando-se dos de alegria e olhava ansioso para o futuro querendo ser alegre novamente. E gostava principalmente quando não havia "intervalos" entre suas alegrias.

Acreditava muito mais do que em só duas pontas nas coisas: Bem e Mau, Certo e Errado. Talvez o exemplo mais perfeito era o da "Direita e Esquerda", pois enquanto muitos pensavam que só poderiam escolher um desses dois, esqueciam-se de olhar o mais óbvio: A frente. O meio.
Era assim que pensava sobre as pessoas, as coisas, sobre o mundo. Tudo havia mais em tudo. Nada era só "aquilo" e ponto.

Também não gostava de pontos. Nem de finais.









A imagem do homem atravesando a ponte. Não preciso explicar, só focar nela. E, bem, mais um texto surrealista na casa de um estranho.

9 de fevereiro de 2010

Reprise

"
Tenho por ti uma paixão
Tão forte
tão acrisolada
que até adoro a saudade
que por ti é causada



Estar desmotivado era o meu maior motivo. Não havia um porque em específico, era naturalmente incompreensível que algo como aquilo não precisava de nada. E era compreensível assim mesmo. Era por ser, sendo, já era.

As luzes que piscam nos meus olhos durante a noite me perdem. Eu não me acho mais e por isso mesmo estou no caminho certo. Esqueço de tudo: lembro que nada deve ser memorável. Lembrar de algo não torna aquilo mais importante do que aquilo de que não se lembra. Sentir sempre me foi muito mais interessante; não gosto de memórias, gosto de momentos.

Dos livros que já li e das músicas que já ouvi, teus olhos e teu coração foram a melhor história já contada e a melodia mais viva que já vivi.

Um abraço;
outro abraço;
dormimos.
"



Os dias máximos de felicidade me causam uma coçeira no umbigo da saudade

6 de fevereiro de 2010

Breve, seja.

 


A tarde era propícia e meus dedos estavam saturados pelo ócio. 
Está quente, está quente! Não se pode fazer nada sem uma dose de sofrimento ou sem um condicionador de ar. Ir à rua antes das 18 horas é um pedido ao suor e a tudo de ruim que o exagerado calor proporciona.

Enfim, de novo aqui estou, escrevendo após um longo período afastado. 
Senti-me um coveiro arrastando para fora do "Eterno Descanso" um corpo que, em vida, havia sido de muito aprazível companhia e de alta qualidade existencial. 'Gente fina esse blog', eu diria pra família dele. Mas acima de tudo, eu precisava escrever e seria traíção minha fazê-lo em outro papel que não esse, porque os meus cadernos já estão acabados. Completamente.

É tão mais fácil digitar do que rabiscar em letras a lápis. Isso de fato me motivou ao ressucitar o blog. Precisava também admitir pra mim mesmo um local onde eu pudesse saber que poderia vir a despejar voluntariosamente todas as possíveis bobagens que ocupam a minha mente consciente, afim de liberar um espaço pr'o que há de vir.

O principal, porém, é a vida. Ela de novo, que me pregou mais uma peça e novamente me disse: "- Viu, eu não te disse que era pra você?". Pude tirar dos ombros um grande peso, talvez o maior de todos eles. E tirei-o em quinto lugar! Ah, que felicidade! Que prazer ver depois de tanto tempo orgulho puro misturado com alegria máxima nos olhos dos meus pais. Faço isso mais por eles do que por mim, o que já é fazer por mim mesmo ao máximo.
E, bem, como eu sei que daqui (Março) em diante terei de esgarçar o meu tempo para poder fazer tudo que quero, e eu quero muito esses meus 'quero', vou esgarçá-lo 'inda mais para aqui poder passar de vez em quando. Terei de ler muito! E isso me deixa animado.

Quem passou pra alguma pública e não fica animado com isso tudo? Estudar, ir pra faculdade, estudar, ir pro barzinho, estudar, ler, estudar, fazer pesquisas e trabalhos de campo, estudar, fazer estágio, estudar...
É, coisa até demais.

Como vim aproveitando as férias! Meus Deus... antes mesmo de ter certeza se passaria para alguma pública eu curtia loucamente todas as saídas, as conversas, os porres, as pegações e as trepadas, ah, tudo, e procurei fazer de tudo, principalmente o que eu não faria normalmente. É, eu aproveitei. Ótimas férias. Tiraram da minha mente aquele rótulo de "trash" e de "boring" que ficava colado em "Férias". E a galera bundona vai pro 'pre-vest' e eu vou pra Urca, ter aula do lado do Pão-de-Açúcar, das praias e da pós da minha irmã! Mano, e vai ter gente muito amada na minha sala, e em outras turmas também! Tudo de que eu gosto fica a alguns passos de lá. Acho que eu não troco esse curso, que vai ser uma mão na roda da minha vida nem pela vaga de Geologia na UFRJ. Ou a UFF, que ainda não me chamou.

Enfim, meu coração está, digamos, 'preso' a UniRio. E isso é tão libertador...





João Victor fez um primeiro post de 'retorno' beeem selfish. Afinal, é FEDERAL! HAHAHAHA

18 de novembro de 2009

Lucky Johnny's Misadventures

 Nada vale a pena, até que a mente fique lenta - Anne Rice, em Armand.




O ato de não ligar para você mesmo.
Simplesmente, é uma tática venerável e completamente paradoxal; fazer o que não faria, e reconhecer, ou não, novos limites. Novos pontos distantes, melhor postando.
Ignorar aquela diferença bostial, admitir a inquieta e vivaz necessidade de comunicar-se. Não por comunicar somente, mesmo que seja assim que tudo começe... até porque 'foi do nada que veio o tudo'. Stephen Hawking.
Um belo par de pernas ele tem. Delícia!...

É complicado porque é simples. Porque é fácil, é rápido, é indolor e muito indiferente. As coisas alegres da vida são indiferentes e essa indiferença carrega pra longe os problemas. Muitas vezes são a luz para os mesmos. Enfim, o simples ato de rir resolve tudo. Sério, resolve tudo. Nada mais importa.
Você ri. Você sabe o que fazer.
Dou risada e sou feliz: logo, existo. Reformulando aquela velha frase, apenas...
É se permitir a chorar com alguem que você nunca iria imaginar de considerar como amigo(a) e perceber que isso não faz diferença nenhuma. Aliás, as diferenças não fazem diferença. São no final as afinidades que nos unem. Não é preciso anos de amizade para uma sinceridade profunda e pessoal. As pessoas tambem são sinceras. Não todas, claro, isso é verdade. O mundo não é perfeito, pasmem. Mas, e se você não arriscar?
É, você acaba saindo muito mais do que arranhado se não arriscar vez ou outra. Palavra de alguém que já quase perdeu um braço num desses 'arranhões' loucos da vida.
Não são as grandes coisas, nem os detalhes que importam. É o invisível. É o indizível, na minha percepção, que sempre me atraiu. Atrai sempre e sempre me atrairá. É quando você não consegue falar nada, ou quando não precisar abrir a boca que tudo faz sentido. Esses momentos valem a morte de qualquer ser humano.

Quando os olhos ficam parados e a face mostra-se endurecida ou lunar, eu estou lá.
Dentro, no centro. O meio-meu,-só-meu,-do-meu-ver-do-mundo-nosso.
Acredito que as pessoas precisem disso. Uma visão pessoal do mundo à volta. Uma visão pessoal do mundo é uma forma de ter-se uma consciência real dele próprio, saca? É entender o mundo nosso, atravéz do mundo só seu. É lindo, e é de graça.

Quando não podemos mais confiar em ninguém, é que perdemos a nossa vida.

5 de novembro de 2009

N.O.M.

Puxa daqui, conversa dali... e o quê sai, é um pouco do que faltava. Um prolongamento, como sempre, de tudo o que já foi escrito.

Mas as coisas não são sempre como deveriam de ser.

Não é sempre tudo a mesma coisa, as pessoas tem valores diferentes, nada é igual pra tod o mundo e, mesmo assim, buscamos uma "Igualdade" unilateralmente universal. Mas não é assim na realidade. Logo não sendo, é que existe o Individualismo. Tanto é assim, que o ritmo de crescimento da grama do vizinho virou ditado popular. É como buscar a singularidade dentro do comum. Dentro de outro. Somos tão idiotas a ponto de complicar coisas tão simples, que tornamos a igualdade em algo individual, e o individualismo virou algo comum à todos, quase como um parâmetro de igualdade entre as pessoas. Hoje, ser individualista é fazer parte de um grupo, um grupo seleto e especial.
Enfim, é tudo de lascar muito com a minha paciência. Com a de qualquer um, creio. Ou pelo menos deveria de lascar.

Tipo, tem até essa parada de Orkut novo e blábláblá...


Qual é mesmo a intenção do Orkut? Não é aumentar a rede de socialização de uma pessoa, fazendo assim com que todos falem com muitos? Bem, acho que vai contra essa maré de socialização do vazio a disponibilização de uma nova versão de um velho serviço para poucos. É segregacionar. É instigar as diferenças. Pior, é instigar a disputa, a briga, a competição. É inflamar o espírito pomposo e redondo de alguns indivíduos medíocres. É banalizar a magnífica idéia de comunicação global sem fronteiras. Isso me inconforma, de certo modo. Não me tira o sono, nem um pouco, mas me inconforma. No final das contas, não é a comunicação global que me tira o sono. É uma comunicação pessoal.


Claro, não é um texto sobre o fim dos tempos da Comunicação. É um alerta sobre novos tempos. Algo como uma Nova Ordem Mundial, ou NOM. Esse termo designa, hoje em dia especialmente, o caso do Acordo do Tratado de Copenhague. Pesquisem sobre o assunto, vale muito.

Indico também o blog homônimo "A Nova Ordem Mundial"



É pouco, até porque hoje vivi um dia forte demais...

4 de novembro de 2009

Mudança(s)

Ideia de Frances Will e seu cabelo cortadinho, e impulso de uma ainda não resolvida situação leonina;






Já parou pra perceber quantas vezes você muda?

Essa pergunta é a resposta pra muitas das nossas dúvidas e questões pessoais. Sempre achamos que quando mudamos algo de modo visivelmente perceptível, é que algo realmente mudou. Ou então, quando mudamos algo nos nossos interiores e ninguém vê, parece que não foi nada e que vai passar. Talvez passe, talvez não. Na verdade, não mudamos nada em nós, só aceitamos. É aceitar um presente a questão da mudança. Mas, como nem sempre um presente é de bom gosto, melhor ficar atento.

Atenção para aquela diferente parte de você que parece estar crescendo. Ela pode não ser você. Ela pode não estar nem crescendo, e sim, aparecendo. Reflita muito sobre as opiniões que valem a pena. Duvide muito das que não são tão intelegíveis. Não aceite críticas descontrutívas, é banal tirar um tijolo da sua própria parede.

Ninguém sabe melhor do que você o que te muda ou o que te mudou. Mais ainda o lugar onde houve a mudança. Não há ninguém que seja mais capaz do que você mesmo de se avaliar. Afinal de contas, é você mesmo o seu maior companheiro, o, literalmente, companheiro de todas as horas. Mas não seja um completo arrogante a ponto de se considerar perfeito. Nem mesmo perto da perfeição alguém pode chegar, sozinho.


É uma questão de dançar na vida que nós aprendemos a lidar com as mudanças, todas, até as de horário de verão. Acordar mais cedo é muito chato, realmente, e é inútil, de fato, mas é divertido até. Quem não gosta de sair "de noite" e encontrar o dia ainda bem claro? É uma sensação de liberdade e leveza...

Mudança.
Liberdade.

Também não vale muito a pena ficar se lamentando pelas mudanças que ocorreram fora do seu alcance. É bom ficar triste, mostra que você existe, mas viver triste só te mostra o oposto. Acostumar-se às mudanças, mesmo que contra a vontade, te tornam mais forte. Sim, mais forte. Qualquer um que sobreviva ao novo cachorro do vizinho, que agora terá 4, ou mesmo a um novo aumento de passagem, torna-se forte. Superação, palavra chave.

Mudar pede reformas. Mudanças grandes, às vezes, uma demolição completa. E se for tão grande, até um terreno novo em outro lugar. Entretanto, infelizmente ainda não inventaram uma maneira de se mudar de corpo. Ou, quem sabe, felizmente que não.

Ando escrevendo textos mais rápidos e menos pesados, tanto gramticalmente, quanto filosoficamente até. Enfim, mudanças. E não me sinto constrangido ou mal por isso tudo.

Mudança.
Liberdade.

3 de novembro de 2009

Observar

Numa tentativa cansada por alcançar o ritmo antigo de postagens. 
Quero minha liberdade de volta!





Não há muito do quê se dizer.

Um mendigo na rua costurando crucifixos em um pedaço de tecido longo e velho, verde, sentado à uma mesa de damas típica dos velhinhos de praça. Ele era velho, mas não estava jogando damas. Estava jogando com a vida. Estava jogando com Deus.
Um homem sem fé, é o que se poderia dizer dele. Talvez, alguém pudesse ir contra a nossa maré e dizer que era um homem de muita fé. Costurar Deus com uma linha frágil num pano velho; é, um ato de fé. O que mais impertigou esses pensamentos fora sua aparência, desvelada de cuidados e largada. Barba mal feita, amarelada pelo tempo e pelo pó dos dias, e quem sabe umas cervejas. Muitas até. A aparência de velho não era a de um velho realmente. Era o velho de rua, aquele que com 50 anos parece ter 70. Era um mendigo de cabelos até os ombros e mal cortados, lembrando o saudoso Raul. Mas Raul era importante. Ele teve clipe musical e tudo. Aquele homem tinha uma linhazinha, um pano, e Deus. Raul morreu de cirrose entre outras coisas, e aquele homem ainda estava vivo. Costurando a fé. Com linhas invisíveis. Num pano velho e acabado.

Tá, isso tudo vi do ônibus parado num ponto esperando os passageiros subirem, ouvindo How to Save a Life e pensando na embriaguez leve e doce de algumas cervejinhas. "As pequenas coisas que te levam a pensar em coisas grandiosas" (Clarice Lispector), isso sempre me atraiu. Assim como os pequenos detalhes, aquelas pequenas aparições da vida nos movimentos das mãos, no ajeitar dos braços, na postura nua e sonolenta, no caminhar nervoso e ansioso. Até no segurar da caneta. Esse mendigo e sua fé me fizeram lembrar de como é bom poder perceber as coisas. Perceber o mundo. Fazer parte dele e viver nele. Principalmente viver nele, até por andar faz um dias fora de algum mundo. Nem no meu mundo eu tenho passado os dias. Sabe, parece que eu passei em branco! Coisas aconteceram, aconteceram comigo, mas eu não aconteci... é, e eu fui pensando assim no embalo do ônibus.


O ônibus vira uma carruagem pros pensamentos e também um tipo de portal que te transporta pra qualquer lugar, maldito ou angelical. Uma questão de percepção, essa mesma que me relacionou um mendigo velho e suas costuras paradoxais com o Raulzito.
Senti um nervoso de continuar pensando e dormi.

1 de novembro de 2009

Saudade

- Você anda usando drogas demais, e o seu sistema nervoso parece não mais aguentar te ter como dono. Já pensou em procurar um especialista?
- Que tipo de especialista, uma puta? Talvez nem ela me ajude... HAHAHAHA!
- Não, é sério... - os olhos ficavam doloridos pelas luzes fracas e a dificuldade de enxargar dentro daquele quarto escuro. - Daqui a pouco você não consiga mais nem levantar dessa cama... e quando isso acontecer, o que vai ser da sua existência? Vai virar pó? Não, não vai!
- Do jeito que eu ando, eu JÁ sou pó, e isso não me parece nada ruim. Esqueceu do que você me disse semana passada sobre o Cazuza?
- Cazuza? Eu já falei tanta coisa desse cara...
- "Morri morto, já na cova. Vive morrendo, já na cova. Nasci sabendo que não havia escapatória. Então, porquê?" E eu te pergunto, porquê, afinal de contas? Se nem o amor me visitou nesses anos todos que eu vivi, como alguma coisa poderia me fazer negar-me ao pó? E o pó é tão reconfortante...
- A ignorância também! E isso é o que mais me incomoda em você!
- Incômodo? Agora virou uma questão de simples incômodo? Eu me incomodo de ter de levantar pra bater a cinza no cinzeiro, e me incomodo por ter sido idiota de ter deixado ele longe da minha cama. Esse tipo de coisa me incomoda. Eu sou um incomodozinho qualquer pra você?

É, o cheiro de morte, aquele cheiro negro e ocre de cinzas velhas, cinzas embebidas nos restos de líquidos das garrafas espalhadas pela casa. O ar pesado e carregado, ausente de luz dos dias que passaram e encoberto por cortinas longas e escuras. Ela já não tinha mais certeza das emoções e dos sentimentos que um dia havia nutrido por aquele menino prodigioso, dezesseis anos apenas, e já capaz de discursar sobre assuntos complexos para pessoas de mais idade. Ela não o achava um gênio, mas o tinha como alguém especialmente maravilhoso. Deus havia gasto um pouco mais de tempo naquele rapaz, disto estava certa.

- Não. Eu te amo, eu te adoro, até mesmo quando eu não te vejo mais em parte alguma dessa sua cara suja e seca. Você não tem se alimentado bem...
- Claro, quando eu comia comida saudável, sentia fome, e eu odeio sentir fome. Quando comia mal, não conseguia comer mais nada durante um dia inteiro. Desisti de comer. Até de água parece que eu não preciso mais.
- Faz quanto tempo que você não come nem bebe nada?
- Uns dias...
- Dias?! - Esticou o braço, e pela primeira vez desde que havia entrado por aquele portal alto e vislumbroso sentia o toque daquela pele suja e cansada. - Deus do céu, você está péssimo! Sua pele está rançosa!
- Virei manteiguinha! HAHAHAHAHA vou me derreter todo por você, mulher dos dedos finos...
- Para com isso, vem comigo! Você precisa de um banho e de alguma coisa pra comer.
- E pra beber!? HEIN, E PRA BEBER!? SABE O QUE EU TENHO PRA BEBER?! NÃO?! - Ele gritava nos ouvidos dela, já longe de alguma razão humana. Só havia ali a máscara infame do palhaço da Loucura e do bardo da Dor. Havia nele segundas intenções, e ela sabia disso.
- Não, não sei. O quê há para beber? - Perguntou impávida, desabalada e concisa. Não se deixaria levar pela tentativa de expurgá-la.
- Saia daqui. - Seus olhos eram invisíveis. Olhavam o chão com a mesma frieza com que este lhe olhava.
- Não vou.
- SAIA DAQUI !!!
- Eu não vou te abandonar, você não precisa desistir de tudo, você não pode perder assim!
- A vida é um jogo roubado! Cartas marcadas, dados viciados, escolha a analogia que for, mas o Homem sempre perde pro Homem, e comigo não será diferente! Só não quero retardar a verdade e amargurar mais os meus dias perdidos de vida insana e correta..
- Insanidade é tudo o que quis dizer o que nós vivemos!?
- Insanidade foi tudo o que eu consegui tirar da vida que nós seguíamos! Você é você, sua capacidade de lidar com tudo isso que insistem em chamar de vida é muito melhor do que a minha. Jamais fui capaz de lidar com a dor, com a felicidade... Nunca consegui entender o que é Amor, e já não quero mais entender.
- Mentira. Se você não amasse, não iria desistir. Você só se cansa daquilo que tenta, e você ainda tenta com todas as forças amar. Você me ama! EU TE AMO! Não há fuga, não há saída, nem desculpas ou motivos. Eu, com vinte e um anos me apaixonei por você, de dezesseis... minhas amigas ainda me chamavam de idiota e retardada por acreditar que você era especial, quando viam em você só mais um moleque mal penteado e encolhido nos cantos...
- Nunca deixei de ser isso. - Apanhou o maço de cigarros. Eram Marlboros, vermelhos. Um maço amaçado e com mancha de molhado, provavelmente de uma bebida derramada. Era a mesma tonalidade da mancha dos lençóis. Acendeu um e jogou no canto do chão, debaixo da cama, o maço. O isqueiro no bolso. - Aliás, demorei muito tempo pra entender o quão retardado eu era. Nunca valeu mesmo a pena ficar olhando você passando com aquela cara de idiota. Eu deveria ter me apagado antes de você querer me iluminar com essas luzes de palavras bem elaboradas e esses dedos finos.
- E você sempre gostou dos meus dedos. Você, que gosta de tocar piano, sempre me admirava ao tocar... porquê você ficou com tanto medo e resolvou desistir?
- Eu não tenho medo! Eu não estou desistindo! Eu já desisti, eu nunca sequer começei! Foi um erro, foi um erro...

Um silêncio.
Para ambos, dizer que o amor entre eles havia sido um erro era como dizer à Deus que sua criação era imperfeita e que merecia o esquecimento. Sim, ambos tinham certeza de que tudo aquilo merecia ser esquecido, mas sabiam também da certeza de que a eternidade de seus olhares, a sinceridade de seus toques, e até mesmo a irritante previsibilidade os tornara impossíveis de esquecer. Eles haviam vivido, e o que se viveu com todas as emoções, jamais seria esquecido.

- Não é um erro. Eu tive certeza disso no dia em que percebi que começava a te perder. Aliás, sempre tive certeza, só tive medo de admitir.
- Admitir, sentir, certezas... você adora essas palavras, não é? São o seu esquema linguístico preferido... sempre foi.
- É, porque com você eu aprendi a sentir, a estar certa, e a admitir. Eu aprendi a não ter medo do medo.
- Andou ouvindo Legião Urbana, foi? - Os olhos dele viravam para a parede da esquerda, e da parede da esquerda para o cigarro. Era um quadro de Van Gogh, "Caveira com Cigarro Aceso". Ele sempre gostara de mostrar à si próprio seus defeitos, suas falhas, suas fraquezas. Ele acreditava que isso o tornava mais forte às críticas e a qualquer possibilidade de mudança. Na verdade, mal sabia que só por acreditar em algo, tornava-se mais forte.
- A melancolia do Renato simplesmente não é suportável. Você sabe disso..
- Ele morreu.
- E daí?
- A melancolia dele acabou. - e olhou-a nos olhos. Sua fumaça expelida pelas narinas fazia com que o ar tomasse um tom acinzentado. Nesse instante ela sentiu dentro da barriga, subindo até o coração, que aquele era um momento final. Ali era a despedida. Ele estava morto, não havia volta.

- O quê você tomou?
- Você nunca vai saber.
- Conta. Eu preciso saber...
- Depois que eu fechar os olhos, quero que você saia por aquele portal e nunca mais volte. Eu vou ficar bem. - mesmo sabendo que não era verdade, porque ele não tinha certeza, disse-lhe que ficaria bem. Suas costas doíam, seu corpo não mais respondia direito aos seus comandos e a única coisa que conseguia fazer direito, era falar. Até mesmo fumar era complicado.
- Vou passar a noite aqui do seu lado. - puxou o lençol fedido e sujo para o lado, e deitou-se ao seu lado. Acalmou a cabeça em seu peito e relaxou.
- Você não vai mesmo embora, não é?
- Não.
- Nem se eu gritar de novo e começar a te empurrar porta à fora?
- Você não vai fazer isso.
Entrelaçou seus dedos aos dedos dela, jogou a guimba no cinzeiro e pediu perdão à Deus. Jurou que se houvesse uma próxima vida, não seria fraco assim. Suas mãos começaram a formigar, e com um último esforço colocou sua mão por sobre os olhos dela. Ela começou a chorar e apertou forte seu peito, e ele sentiu um pouco de dor, mas não disse e tão pouco fez alguma coisa. Desistiu de reclamar. Desistiu de afastá-la nos momentos bons. Ele morrera. Ela, dormira.
Ao acordar no dia seguinte tentou acordá-lo, infantilmente e inocentemente. Quando se permitiu, chorou. Levantou da cama e caminhou pelo portal.
Nunca mais voltou. Nunca mais soube qualquer coisa sobre aquela casa e sobre ele. Mas agora discordava de Cazuza quando dizia:

"Eu não posso causar mal nenhum
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim."

Levou consigo seu isqueiro de metal e uma mecha de seus cabelos pretos. E o Amor, e os detalhes.





Eu não sei o que é isso, mas eu sei o que provocou. Vide título.

23 de outubro de 2009

Sem Título

Talvez a melhor forma de começar seja pelo fim. A morte.

"O fim dos seus dias", "O último badalar dos sinos", "A derradeira bebida", "O último trago", "A despedida repentina"; não importa, são todas iguais. Todas são o fim do início e o início do fim, que para muitos é só o prelúdio de um outro início.

Você está em casa e resolve que precisa comprar ovos. Vai ao mercadinho, e pede ovos. Compra ovos, caminha pela calçada da direita, leva um tiro (sem notar) na cabeça e morre.
Morre? É, você morre. Simplesmente. Banalmente, você morreu. Quando, banalmente, você estava voltando após ter comprado ovos, o que ganha: um tiro. E perde também a vida.
Não há uma segunda chance como nos videogames, e nem há uma outra possibilidade. Você está morto.

E quando você morre, o mundo para? Pelo contrário. Ele parece existir mais rápido, andar mais rápido, voar mais rápido e é você que está atrapalhando tudo com o seu corpo ensanguentado e esticado grotescamente no meio de uma calçada da direita. Grotescamente esticado como somente o abraço da morte poderia ter-lhe deixado.
E as suas coisas, o que será delas? Pessoas irão remexê-las e desfazer-se de muito, e aproveitar somente aquilo que lhes for interessante. Vão fazer o papel dos decompositores e exterminar qualquer vestígio de sua passagem pela Existência. Aquelas que gostaram de você, te acharam um cara legal e tudo o mais, vão continuar a vida. As que te amaram, vão morrer em alguma proporção. Se você não se permitiu amar ninguém...

Seu cachorro vai continuar sujo, seus projetos não serão concluídos (pelo menos por você), a roupa molhada vai continuar dentro da máquina de lavar e você ainda vai deixar alguém te esperando para aquele compromisso de hoje à tarde. Não há jeito, não há como avisar: se morre. A morte sim, essa indiferente criatura, essa é quem vai avisar aos outros de algo: de que você não faz mais parte da vida. Você se foi. E o mundo haverá de ter perdido a sua presença, o seu sorriso, o seu choro e o seu calor.

Mesmo que você tenha fumado dois maços de cigarro nos últimos vinte anos, que tenha bebido das mais loucas bebidas, até o mais tradicional whisky schot. Mesmo até que você tenha corrido pelas ruas ou na academia, ou que tenha feito check-up ao final de cada mês, você estará morto um dia.

Pensado isso, cai em nós aquela torrente de perguntas: Quem eu terei sido ao final da vida? Quem terá me visto viver? Por onde terei ido? Quem terei conhecido? Quantos anos eu terei? O que terá escolhido meu filho - Medicina ou Psicologia? Mas, mesmo que você encontre ou não resposta para alguma dessas perguntas fatídicas, a mais importante é: Será que valeu a pena?Parece pouco, parece pequena demais. Mas, pode acreditar; se você tiver resposta só para esta pergunta, nada mais será indagável.
Faça-se o favor e facilite a sua resposta largando para longe todas as bobagens e pequenas coisas e vivendo a vida que há para viver.

Perdoe... sempre!!!

14 de outubro de 2009

Sobre Descartés, evolução e sorrisos.

-Texto puxado de dentro para fora por uma gama de acontecimentos possitivos e outros um tanto quanto vomitáveis.-



Acho graça em muitas coisas. Acho mesmo graça em fatos e coisas que outras pessoas, geralmente, ou não acham engraçadas, ou simplesmente não notam. Pego a mim mesmo diversas vezes sorrindo sem um motivo aparente e me percebo, novamente, despreocupado em querer encontrar um maldito motivo de um sorriso tão gostoso de esboçar. Acho que é só a leveza do Caos em que todos nós vivemos olhando para mim. Todos.

Também não acho, nem vejo mais graça em determinadas coisas e fatos. Antes o que me fazia sorrir, me faz agora ficar calado. É uma mudança meio brusca, admito, mas que conseguiu trazer toda a sutileza da verdade aos meus dias. Antes, quando eu sorria, era algo sinistramente mecânico e imperceptivelmente irreal. Uma brusca ruptura com alguns dos padrões humorísticos que me mantinham, mais uma vez, me mostrou o quanto se pode mudar, sem mudar de fato, em um pequeno, curto, rápido e impetuoso espaço de tempo.

São mudanças essas pelas quais todos devemos passar. Não somente passar, mas sentir também, pois de nada nos adianta perceber um resultado final como ele nos aparenta ser sem entender suas causas, suas raízes existenciais. É como ver o final de um filme sem nem conhecer as personagens, ou o enredo da película. Você vê o Coringa (não Curinga, como minha querida professora de Soc. e Fil. disse-me outro dia, crente) explodindo as coisas e acha aquilo tudo um máximo, sem ter noção das batalhas, das perdas e dos danos anteriores que levaram àquele final. E nem das vitórias.

Muitos de nós acreditam que as consequências são mais importantes do que as causas. Sim, de fato as consequências podem ser mais importantes do que as causas, até por ser essa priorização dos pontos a vigente hoje em dia. Graças ao querido Descartes. Ele foi um gênio, aliás, mas nos deixou como legado o seu modo de raciocínio e ensino; o raciocínio cartesiano, aquele onde leva-se somente em consideração os pontos visíveis, aquilo que é tangível, de algum modo, às nossas primárias e estimuláveis concepções do mundo. Não vemos as coisas, vemos seus resultados. Não vemos uma cadeira, vemos sua função, a de sentar.

Não vemos as pessoas, vemos o que elas podem nos proporcionar. Se não nos serve de nada, um ser passa a ser completamente inútil, logo, completamente ignorável. Mesmo que possa ser essa a pessoa mais doce, mais inteligente e a mais sensível do mundo.

O pensamento cartesiano é um tipo de pensamento que foi evoluindo do banal e utilissíssimo instinto de sobrevivência. Infelizmente, voltado às práticas de uma humanidade exponencialmente crescente e gamada em seus ideiais. Vê-se hoje no céu cinza um dos seus infinítos resultados negativos. Enfim, de qualquer modo, evitando agora dar voltas em assuntos futuros, atenho-me a uma tentativa feliz: divagar sobre o porquê dos quais e poréns. E um salve! ao Los Hermanos, extinto.

Fatalidades da vida à parte, eu sorrio. Com ou sem meu amor, o Los Hermanos. Com ou sem, e, na verdade, sem os meus velhos e pesados conceitos das coisas, venho sentindo mais a vida. Não somente sentindo, o que me limitaria a uma percepção sensorial do ar que respiro; pensando, amando, dizendo, negando, lendo, ... uma sinestesia de valores, se for isso possível. E tudo isso fica claro, de uma forma ou de outra, na simplicidade da exposição dental conhecida por nós Homens, como sorriso. Acredito ter acendido o pavio da dinamite que é para mim este texto, ao ler uma passagem de um livro de Gabriel García Márquez; O Amor nos Tempos do Cólera (recentemente comentado aqui), quando é descrita a dor de um homem ao ver um outro, inválido, viver uma vida acorrentada aos prazeres minguados de alguém diferentemente limitado. E principalmente na incrustada possibilidade de tristeza profunda que o rondava, mas que mesmo assim, não o possuía. Ao ler, talvez vocês também entendam. Tive de reler a passagem duas vezes para compreender o que minha inconsciência me havia notado.

Tudo por mérito de um sorriso, persistente, que cisma de aparecer quando eu menos espero, mostrando uma vez mais e sempre, que é impossível ser infeliz para sempre. É uma questão de querer.

 O que um sorriso pode provocar...




1- Espere. Vou escrever mais sobre isso, relacionado diretamente duas pessoas que me odeiam, hoje em dia. Até.
2- Não tenha medo!, evoluir faz parte da arte de viver, M.R. !

12 de outubro de 2009

Nós não estamos sozinhos, estamos à sós.

"O Amor nos tempos de Cólera."

O quê esta frase lhes disse?
Acho que sou megalomaníaco, mas acredito poder escrever sempre, por sempre ter muito a dizer. Muito a quem dizer, por quem dizer. Mas, por via de uma consciência externa, me percebo como alguém mais uma vez falando se si próprio.

A minha mais nova conclusão do porquê desse crescente movimento de pessoas que, quando escrevem, escrevem sobre si, nos diz que é resultado de um processo de individualização do indivíduo. Mais extremo do que parece ser pelo nome, é algo como a inserção da individualização, processo esse necessário, a individuação do ser. Estamos nos vendo como seres desnecessitados de outros seres, ou que, simplesmente, percebem outros como asceclas pessoais.

Ha alguns anos vem ocorrendo esse processo que pode ser tido e dito como "A Objetação do Homem". A cada dia, cada vez mais e mais o Homem tem se tornado objeto do Homem. Uma louca e amarga cultura do eu sozinho cresce a cada instante, a cada sorriso não dado,a cada abraço negado e a cada palavra feia que é dita.

Amor nos Tempos do Cólera, livro de Gabriel García Márquez que me inspirou a frase lá do início, conta, principalmente, a história de um homem que vive por cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias longe de seu amor, e morre por essa triste saudade. Um livro muito interessante que me fez, em conjunto com outro conjunto de palavras, escrever este texto.

Já fazem alguns dias que não deixo aqui um texto meu. Ando escrevendo somente coisas pessoais, mas Deus entende.

Tanto o bom velho me entende, que de modo não menos agradável e doce me presenteou com um texto amigo. Um texto feminino, ainda (aprecio os textos femininos, assim como as femininas escritoras). Conclusivamente um estímulo às minhas palavras e à minha caneta, que já quase acaba.

Um desabafo, meus amores. Tudo de que eu precisava: um desabafo. Um belo conjuto harmonicamente jogado de palavras e muito sentimento. Tanto eu dele precisava, como de mim, ele, a mim mesmo esperava. Um desabafo doce e simples. Um desabafo com uma amorosa tentativa de complexidade. E bato palmas e canto loas ao teu empenho, seguramente alcançado.

Necessariamente, alguns muitos desprezariam um desabafo, bom ou mal, perfeito ou ridículo que fosse. Admitam: A ideia do desabafo alheio lhe incomoda o vêntre. Pois que é, muitos de n´s negariam esse precioso veículo de intercomunicação de sentimentos. Muitos de nós se dizem ocupados demais, preocupados demais, cansados demais para ouvir alguém.

Sempre queremos o "venha a nós o Vosso Reino", mas nunca, jamais admitimos "que seja feita a Vossa Vontade".

Assim na Terra, como no céu, fazemos questão de nos mostrar como pessoas cansadas, ocupadas e preocupadas demais quando nos é pedido um pouco de atenção e carinho. Um absurdo, primeiro por não sermos realmente tão ocupados e cansados assim, segundo, por mantermos externamente o extremo oposto. Fingimos sermos perfeitos e autossuficientes, quando na verdade, na pura e profunda verdade, não somos o primeiro, e muito menos, de longe, podemos sempre ser o segundo.

Nos é preciso cair na aceitação da realidade, para podermos enfrentá-la. Vamos lá, admitam! Admitam logo que nenhum de vocês é realmente pra baixo sempre, ou exclusivamente pra cima o dia todo. Eu mesmo escrevi até agora usando a primeira pessoa do plural. Vivemos numa época paradoxal e profundamente superficial, onde os limites da comunicação vão se extinguindo e, talvez por isso, as pessoas tenham perdido o precioso senso de valor das palavras.




Incrível como conseguimos fazer com que, em 140 caracteres, um número qualquer de indivíduos se sinta, falsamente, parte do nosso cotidiano. E enganamo-nos, o que é terrível. O mais curioso, porém, é que mesmo com toda essa evolução tecno-comunicativa, ainda não consigamos olhar nos olhos de alguém ao lhe dirigir a palavra. Não conseguimos nos permitir tocar uns aos outros, trocar sensações básicas enquanto trocamos palavras.

É realmente um mundo paradoxal. Um paradoxo essa mistura de esperança e desesperança que a nossa época nos instaura. É triste perceber que muitas pessoas boas têm de se utilizar, de modo desesperado, de coisas que são normais.

Sinto inveja dos idílicos anos 70.

Desculpem-me pelo desabafo, mas acredito que andamos agindo como seres inferiores, se esse conceito de inferioridade existir, de fato. E eu vou continuar ouvindo todos os desabafos, de todas as pessoas amáveis. Prazerosamente.





As pessoas amáveis realmente merecem ser amadas.

28 de setembro de 2009

Exercício da Vivência.


É um exercício complexo esse de convivência. É algo que requer maturidade, que pede a sua mais profunda capacidade de aprendizado e, atenção. Muita atenção para não trocar as bolas.

Toda essa preocupação, vez por outra, ou passa extremamente despercebida, ou absolutamente descontrolada, tomando controle até de nós mesmos. Isso só poderia ser entendido como um medo do desconhecido, como uma perturbação do além-mundo, essa coisa de conviver. "Con-vi-ver", viver com, mas não somente com. Também entre, por, via, sobre, sob. Viver, entrelaçar-se, desprender-se do apego minimalista para apegar-se ao todo. Esquecer a diferença e dedicar-se, de corpo, alma e tinta, ao ato de convivência.

(Reparem, estas serão as grandes tendências motrizes das postagens daqui em diante: Relações, Eu's, Amor e Ciências).

Requer de muitos um esforço equânime ao de Atlas, carregando o nosso mundo às costas. Interessante, ele carrega todo o mundo nas costas... e ainda existem pessoas que acreditam carregar fardos imensos. Eu mesmo acreditava nisso. Hoje, prefiro encarar meus pesos como oportunidades, meios, modos de melhorar. Caminhos novos para entendimentos novos, conhecimentos novos de coisas, pessoas, mundos inteiros e inteiramente novos.


Mas, como nem tudo são rosas e espinhos, existem ainda as lagartas.


O desvio da intenção correta daquilo que é natural em nós é um acontecimento influenciado, basicamente, pelas impressões externas e as diretrizes alheias a nós próprios. Ou, como mamãe diz: Más influências. Amizades mesmo. Colegas, coleguinhas, conhecidos. Existe toda a certeza de que cada uma dessas pessoas que passam por nossas vidas todos os dias sejam também parte de nós mesmos. Desde o mais ínfimo pedaço de nossos Eu's, até a mais profunda característica pulsante e vigente.

Entretanto, como que por mágica, muitas vezes essas pulsantes características, simplesmente deixam de ser vigentes e, certamente, muitos perdem um pouco da noção de si próprios.
Isso é preocupante. Não existe armadilha maior para um ser ainda em estágio de formação do caráter, do que um longo e complicado período de desperdícios e erros, seguido de erros, seguido de erros e seguido de erros. Pois bem, essa é exatamente a hora em que temos a possibilidade de nos soldarmos mais em nós mesmos. De sermos o que viemos para ser e, galgar lugar dentro de nossas vidas. A escolha certa passa a ser todas elas, todas, todas as que são tomadas durante o dia a dia.

Não quais decisões toma, mas simplesmente como as decide. Não importa aqui o resultado, mas o caminho percorrido até ele. Sim, é um exercício que requer maturidade essa coisa outra de aprender e crescer. São duas coisas que coexistem e que nos formam: Convivência e Aprendizado.
Sem ambos, seria no mínimo complicada a existência da raça humana aos bilhões. Poderíamos ainda hoje ser um grupo de macacos. Ou então seres que tentam se isolar uns dos outros. De um modo ou de outro, estaríamos fadados ao fim, à extinção.


Mas, será que já não estamos fadados à isso? Acredito que não.
A cada dia que passa e, bem, para cada um de nós pode-se contabilizar um número maior de acontecimentos que podem mesmo nos fazer acreditar que, cedo ou tarde (mais cedo do que tarde), seremos eliminados por nossos erros. Mas não, não creio que seja uma questão de erro e correção. É algo mais do que isso. É uma questão de erro, aprendizado e evolução, sem a parte da "correção".

Nós não podemos fugir daquilo que nos amedronta
- F. Dostoiévski

Pois bem, que encaremos nossos problemas e as situações em que nos colocamos, ao invéz de passarmos boa parte de nossas vidas que, de modo recompensador ou não, é 1/3 perdida dormindo. Uns, aceitam isso como um merecido descanso. Outros, como eu, encaram essa perda de tempo como uma simples perda de tempo. De uma maneira ou de outra, vivam. Mas, acima de tudo, pensem, mesmo que seja antes de dormir e não pensar em mais nada.





Não esqueçam de beijar as mães de vocês ao acordar. Os pais também, claro.

27 de setembro de 2009

A Crise de Percepção. - ou - A Música das Esferas.


Ando vivendo momentos de reflexão. Uma reflexão grande e não necessariamente auto-crítica. Ando revendo (e vendo) desde os porquês que me direcionam a seguir um determinado caminho que me liga de um lugar ao outro, até o mais pessoal e profundo "porquê dos quais e poréns". Também não é uma questão de necessidade, muito menos de insegurança. Pelo contrário, a reflexão em si, no meu caso, sempre foi uma ferramenta que me ajuda a embasar mais e mais minhas próprias perspectivas do espaço à volta.

Algumas das vezes essa ferramenta me permite constatar que, aquilo que me era tido como 'X', na verdade é um 'Y'. Ou que simplesmente não existe matemática para aquela. Compreendi também que hoje o principal motor da problemática humana não é uma falta de possibilidades, ou um despreparo inerente de nossa raça para lidar com os problemas mundiais, políticos e econômicos, regionais ou pessoais; é uma simples e, ao mesmo tempo, complexa crise de percepção.

Quero antes de tudo avisar que, por mais que um texto possa a vir a ser resumido ou expresso em uma única linha de pensamentos ou um único grupo de conjugados pensamentos analíticos, palavras são sempre mais do que palavras. Logo, um texto pode ser aplicado em todas e quaisquer circunstâncias de nossas vidas, em nossos cotidianos, em nossos particulares e no nosso público viver, passando do respirar até o grande assunto das bocas, o Amor. Esses dois pontos, aliás, explicitam dois extremos que curiosamente se chocam diariamente nos nossos pensares e nos escritos dos mais bem conceituados poetas e escritores.

Hoje, a noção crítica e pessoal deu lugar ao senso comum. Não no vinhés conhecido por nós, alunos de ensino médio e pré-vestibulandos, mas sim na questão do literal senso comum. O grupo, o Todo, pensa de um modo individualizadamente grupal, como se cada tomada de atitude ou cada não-tomada da mesma fosse em prol de um Todo. É uma complicada mistificação do 'amor ao próximo' e um total descaso com o 'à ti mesmo'.
Poderia ser atribuída essa tal crise como sendo resultado de uma vontade superior, no sentido humano, ao Poder. O Poder, nas mãos de uns poucos, torna toda uma humanidade, a nossa raça, subjulgada por um grupo minoritário e detentor das mais variadas formas de regulação social, política, econômica, pessoal... e por aí vai.

Mas não. É uma questão pessoal. É um "quê" tão intimamente intrínseco, que passa despercebido. Continua a passar despercebido, por sinal. Eu mesmo não sei o que seria esse "quê" elucidante e libertador.

Acho que a melhor forma de explicar essa tal intrínseca solução, esse "quê", seria relacionando-o com a Física e com a Química, matérias que venho estudando vestibulosamente.
A muito tempo atrás, e eu não vou me preocupar nem um bocado em medir temporadas, nosso tão querido e amado Newton propôs, atravéz de inúmeros e perfeitos cálculos, as mais variadas formas e interpretar os fenômenos da natureza. Essas elucidações por sí só, transformaram toda a mente humana da época, e além dela, como ainda hoje em dia podemos observar. O problema ao qual vou me ater, porque existe mais de um problema na temática newtoniana de ver o mundo, é que tais fenômenos são estudados e explicados em isolado, em seperação de um todo.

Alguns devem lembrar, lá das aulas de Química, quando se foram vistos os primeiros modelos atômicos propostos. Logo, aprendemos o modelo atual de idealização de um átomo, a matéria principal e constituínte de todas as outras formas. Na época de sua descoberta, houve por parte dos cientistas toda uma perturbação ao descobrir que, ao redor de um átomo, rodeavam-lhe outras partículas menores, os elétrons. Porém, o grande choque de realidade foi recebido quando notou-se que o que havia entre um elétron e o núcleo de um átomo, eram grandes espaços vazios. Não somente as grandes distâncias entre o centro e os elétrons assustavam os cientistas, como também a noção de que, por exemplo, se um átomo é do tamanho do Rio de Janeiro, o estado, o núcleo seria do tamanho do campo do estádio do Maracanã, e que a distância entre um elétron e o núcleo de um átomo é tão proporcional quanto a distância do Sol à Terra.
Sim, é uma escala realmente perturbadora e chocante.

Mais chocante ainda foi entender que, para se medir um elétron, você só poderia fazê-lo em um determinado momento. No exato instante seguinte, aquele mesmo elétron já não mais estaria no mesmo lugar, assim como já não seria mais a mesma partícula.

"Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio" - Heráclito

Para entender melhor, é como se um elétron não existisse. Ele existe no momento em que precisa existir. Ele passa a existir quando precisa coexistir com outro elétron. Essa talvez seja a melhor forma de se explicar essa idéia, um tanto quanto confusa.

A matéria como nós a entendemos hoje, é constituída pelo princípio da solidez. Matéria sólida essa, com enormes espaços vazios entre um átomo e outro, entre um elétron e seu núcleo. Então, como nós não atravessamos paredes, ou caímos por entre chãos e chãos de matéria?

A resposta está na tendência. A tendência de que cada elétron, sendo infinitamente pequeno e que exista em constante movimento tenha de se associar à outro elétron. É uma relação, uma ligação, um contato, uma troca, uma coexistência.

Assim como na Ciência, as soluções não existem de fato. Elas seriam intrínsecas, seriam naturalmente parte de nossa existência, tornando-se reais ao passo de que as necessitamos. É o problema da falta de percepção dessa necessidade que nos torna cada vez mais distantes uns dos outros, feito elétrons e seus núcleos. Cabe a cada um de nós pensar, utilizando desta ferramenta unicamenta capaz, o cérebro, em como criar nossas soluções. Em como criar nossas relações, nossas ligações e vidas.


"Um homem pode viver sozinho, mas um Sozinho jamais será um Homem."



1- João Victor melhorando suas afinidades filosóficas com as científicas.

25 de setembro de 2009

O apartamento, as 23:57, Maroon5

A música que toca faz com que eu dance e
ela olha nos meus olhos que cintilam
e sente o cheiro do meu corpo
minhas asas
minhas garras

Envolvida no torpor mal sabe ela
que quem se envolve sou
eu, que me aproveito de minha
fraqueza momentânea, e
faço pose de malvado

Ameaço destruir seu quarto se ela
não abrir as pernas pra mim naquele
instante.
Ela ri.
Ela ri, pois sabe que o que tenho nas mãos
não passa de um pau
grosso e grande.

Eu deveria tê-la ameaçado de
destruí-la com meu pênis. Mas ela
iria gostar disso.
Deveria então tê-la ameaçado de destruí-la
por dentro
com as minhas palavras.

Mas não surtiriam efeito algum
as minhas balas
fálicas
cruzando o vazio
que se expande por dentro
daquelas pernas arreganhadas.

Ela sempre esteve arreganhada para mim.



Não se assustem ; é só uma tchotchokazinha e uma rosa vermelha (: