São ainda duas e quarenta e sete da manhã e eu não consigo esquecer as últimas três horas e vinte e três minutos que sucederam antes de eu vir parar aqui nessa mesa de hospital.
Minha mulher teve um filho, e o meu filho nasceu paraplégico por causa de uma disfunção cerebral que ele desenvolveu dentro da barriga da mãe, que era fumante. Fumante porque o pai dela abusa dela, sempre, todos os dias quando a mãe ia sair pra trabalhar em uma empresa de telemarketing em Madureira logo de manhã bem cedo, e antes de chegar no ponto de ônibus ela passa no seu joca, jornaleiro, e comprava um maço ali com ele. Enquanto ela era abusada pelo pai, a mãe trabalhava doze horas por dia e voltava pra casa tarde demais pra poder dizer boa noite pra filha. Um dia, quando o pai dela, que aliás, nem era pai de verdade, morreu, a mãe dela a abraçou e pediu desculpas, dizendo que não sabia mais o que podia fazer, se não fumar. Dois anos depois a mãe dela morreu de câncer pulmonar que se desenvolveu enquanto ela, a filha, ia trabalhar pra sustentar a mãe doente em casa. A mãe morreu enquanto ela trabalhava na rua como atendente de telemarketing, e ela não pode nem dizer adeus, e nem fazer mais nada, a não ser fumar. Pelo menos ela pode pagar um enterro num cemitério de bacana na zona sul. No mesmo dia da morte da mãe dela, nascia uma garotinha muito lindiha, de olhos azuis, perninhas gordinhas e branquelas, boquinha vermelhinha e dedinhos do tamanho de um afago. Essa coisinha linda pra quem todo mundo olha se chamava Rebecca, com pai chamado Roberto e a mãe, Mirela. Rebecca. Eu sou o pai, Roberto. Tenho ainda vinte e oito anos, moro no Rio de Janeiro, no bairro do Flamengo, do lado da empresa onde eu trabalho. Essa empresa foi do meu pai, que morreu faz uns poucos anos, não me lembro mais quantos, mas sei ainda que foi de câncer de pulmão. Minha mãe falava que ele tomava café cedinho, todos os dias, e nunca que conseguia terminar o pão porque “o relógio sempre marcava dez minutos a mais do que ele podia gastar”, e por isso eu nunca que comi de manhã com ele na mesa. Só ficava olhando o jornal que ele tinha lido e deixado na cadeira, imaginando o que ele tinha achado do aumento da bolsa de valores de Londres, do terremoto que matou mais de dez mil no Japão, ou do escândalo de desvio de verbas dos senadores. Eu nem sabia quem era Londres e quais valores tão altos ele tinha nessa bolsa. Só sabia que ele matava a fome do café da manhã com cigarros, um atrás do outro nos finais de mês, quando a empresa fechava contas. Um dia, quando eu terminava de tomar meu café com leite, o elevador em que ele estava caiu dezessete andares direto no chão. Só o meu pai estava nele. No hospital, disseram pra minha mãe que não iam poder fazer muita coisa por ele, porque a cirurgia que podia salvar a vida dele teve de ser cancelada ao descobrirem que ele tinha um câncer de pulmão já avançado, que debilitava todo o sistema dele. Depois disso, eu cresci e entendi o que era a bolsa de valores de Londres, e entendi porque ele lia aquele jornal todos os dias. Eu consegui garantir o futuro da Rebbeca graças à essa bolsa, que nem era minha, e a Mirela podia encontrar todos os dias com as amigas aqui no apartamento, pra ficarem elas todas bebendo martini e fumando um cigarro muito fino e muito fedorento, como todos os outros, até não aguentarem mais e chamarem seus motoristas gostosões na hora de ir embora. Num dia desses, eu fui até o cemitério conversar com o meu pai sobre o aviso de concordata que uma rival nossa havia pedido recentemente. Lá, vi aquela mulher de olhos cheios, pele morena e cabelos cansados. Ela fumava.
Minha mulher teve um filho, e o meu filho nasceu paraplégico por causa de uma disfunção cerebral que ele desenvolveu dentro da barriga da mãe, que era fumante. Fumante porque o pai dela abusa dela, sempre, todos os dias quando a mãe ia sair pra trabalhar em uma empresa de telemarketing em Madureira logo de manhã bem cedo, e antes de chegar no ponto de ônibus ela passa no seu joca, jornaleiro, e comprava um maço ali com ele. Enquanto ela era abusada pelo pai, a mãe trabalhava doze horas por dia e voltava pra casa tarde demais pra poder dizer boa noite pra filha. Um dia, quando o pai dela, que aliás, nem era pai de verdade, morreu, a mãe dela a abraçou e pediu desculpas, dizendo que não sabia mais o que podia fazer, se não fumar. Dois anos depois a mãe dela morreu de câncer pulmonar que se desenvolveu enquanto ela, a filha, ia trabalhar pra sustentar a mãe doente em casa. A mãe morreu enquanto ela trabalhava na rua como atendente de telemarketing, e ela não pode nem dizer adeus, e nem fazer mais nada, a não ser fumar. Pelo menos ela pode pagar um enterro num cemitério de bacana na zona sul. No mesmo dia da morte da mãe dela, nascia uma garotinha muito lindiha, de olhos azuis, perninhas gordinhas e branquelas, boquinha vermelhinha e dedinhos do tamanho de um afago. Essa coisinha linda pra quem todo mundo olha se chamava Rebecca, com pai chamado Roberto e a mãe, Mirela. Rebecca. Eu sou o pai, Roberto. Tenho ainda vinte e oito anos, moro no Rio de Janeiro, no bairro do Flamengo, do lado da empresa onde eu trabalho. Essa empresa foi do meu pai, que morreu faz uns poucos anos, não me lembro mais quantos, mas sei ainda que foi de câncer de pulmão. Minha mãe falava que ele tomava café cedinho, todos os dias, e nunca que conseguia terminar o pão porque “o relógio sempre marcava dez minutos a mais do que ele podia gastar”, e por isso eu nunca que comi de manhã com ele na mesa. Só ficava olhando o jornal que ele tinha lido e deixado na cadeira, imaginando o que ele tinha achado do aumento da bolsa de valores de Londres, do terremoto que matou mais de dez mil no Japão, ou do escândalo de desvio de verbas dos senadores. Eu nem sabia quem era Londres e quais valores tão altos ele tinha nessa bolsa. Só sabia que ele matava a fome do café da manhã com cigarros, um atrás do outro nos finais de mês, quando a empresa fechava contas. Um dia, quando eu terminava de tomar meu café com leite, o elevador em que ele estava caiu dezessete andares direto no chão. Só o meu pai estava nele. No hospital, disseram pra minha mãe que não iam poder fazer muita coisa por ele, porque a cirurgia que podia salvar a vida dele teve de ser cancelada ao descobrirem que ele tinha um câncer de pulmão já avançado, que debilitava todo o sistema dele. Depois disso, eu cresci e entendi o que era a bolsa de valores de Londres, e entendi porque ele lia aquele jornal todos os dias. Eu consegui garantir o futuro da Rebbeca graças à essa bolsa, que nem era minha, e a Mirela podia encontrar todos os dias com as amigas aqui no apartamento, pra ficarem elas todas bebendo martini e fumando um cigarro muito fino e muito fedorento, como todos os outros, até não aguentarem mais e chamarem seus motoristas gostosões na hora de ir embora. Num dia desses, eu fui até o cemitério conversar com o meu pai sobre o aviso de concordata que uma rival nossa havia pedido recentemente. Lá, vi aquela mulher de olhos cheios, pele morena e cabelos cansados. Ela fumava.
(continua)
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