9 de dezembro de 2010

Minhas pernas, minha Verdade

Acho que atravessei a rua e não olhei direito os dois lados antes. Perdi a noção do branco e do preto, e fiquei flutuando ali, no meio da Rio Branco, durante uma daquelas chuvas de afundar Niterói. Perdi o contato com o mundo, mas senti que era dele que eu existia. O dia ficou com um cheiro tão úmido e cinza... parecia que eu era o dia também, parecia que eu era chuva e dióxido de carbono, freada de ônibus e berro de camelô. Tudo, tudo tudo e tudo, junto, misturado, unificado e glorificado. Deus existia. O homem foi à lua. Hobbes estava errado e o Amor era moeda de troca.

Sim, eu estava flutuando de fato. Milésimos de segundo em que fiquei em choque, como os médicos me explicaram, foram o suficiente para causar toda essa abrupta quebra de normalidade na minha percepção do Todo. Flutuando, flutuando... porque o meu choque não foi tão profundo e nem tão superficial, senão eu teria apagado no mesmo instante. Foi quase que a uns 80 por hora, não sei, isso foi o que um cara estranho lá me disse, não sei ao certo. O dono, ou dona, do carro, fugiu.

Fiquei caído lá, inconsciente. Não aguentei a Verdade e apaguei. O sangue escorria, e eu podia sentir a entropia do universo aumentando, aumentando... e quando eu percebi que a chuva tinha parado, me toquei de que ela batia forte no meu rosto, nos meus dentes e na minha garganta. Mas minhas pernas: elas já não faziam parte mim. E foi assim que eu conheci a Verdade. E foi assim que eu perdi as minhas pernas.

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